CINEMA PURGATORIO ANNOTATO

Cinema Purgatorio Annotato: volume 3, história 3: “As Revelações do Morcego”

O site Cinema Purgatorio Annotato compilou uma série de apontamentos sobre Cinema Purgatorio, a série comandada por Alan Moore e Kevin O’Neill. É um guia para ler os contos da sala de cinema captando todas, ou quase todas, as referências que os autores despejam para contar a macabra história de Hollywood.

Traduzi o volume 3 de Cinema Purgatorio (Panini, outubro/2019, 152 páginas, disponível aqui) e, como não podia deixar de ser, me servi muito do Cinema Purgatorio Annotato. Perguntei aos dois principais autores do site, Alexx Kay e Joe Linton, se podia traduzir os comentários e publicar aqui. Eles toparam.

Vale uma recomendação: leia a HQ, só a HQ, primeiro; depois leia com acompanhamento dos comentários. É melhor.

Cinema Purgatorio 9: “As Revelações do Morcego”

(Annotations originais em inglês)

Obs.: Tem umas coisas que parecem óbvias, mas nunca se sabe quem vai ler estes comentários e o conhecimento que tem. Se deixamos alguma coisa de lado ou entendemos errado, avise nos comentários.

Thelma Todd – foto via Wikipédia

Visão geral: A história da vida e da morte precoce da atriz hollywoodiana Thelma Todd (1906-1935). Todd era uma atriz famosa sobretudo em comédias, cuja carreira abarcou filmes mudos e os primeiros falados. A morte de Todd foi considerada acidental, embora haja indicações de homicídio e suicídio. Moore e O’Neill defendem que Todd foi vítima das forças sinistras que a indústria do cinema exerceram sobre ela. Muitos detalhes da HQ (tanto textguais quanto visuais) vêm diretamente do livro The Life and Death of Thelma Todd, de William Donati (que trato daqui em diante como LaDoTT).
A HQ trabalha com alegorias do filme O Morcego (The Bat, 1926), dirigido por Roland West, que foi namorado de Todd uma vez que outra. O Morcego viria a inspirar a criação do Batman. Moore e O’Neil incluem várias conexões com a DC Comics, sobretudo com Batman.

A Capa Original

  • A imagem do morcego faz referência ao filme O Morcego (1926), dirigido por Roland West. O filme mudo tem 90 minutos e está completo no YouTube. Em 1930, West também dirigiu uma versão falada do mesmo filme, chamada Os Sussurros do Morcego (The Bat Whispers), que também está no YouTube.
  • A mulher de vestido vermelho recostada é Thelma Todd.
  • Da esquerda para a direita, há várias personalidades de Hollywood com quem Todd colaborou:
    1 – Homem de gravata branca (refletido no espelho): Pasquale DeCicco, produtor, marido de Todd, tinha ligações com a máfia – ver páginas 4-6 abaixo.
    DeCicco aparece jogando um moeda, quem sabe em referência a Duas Caras, vilão do Batman. A analogia DeCicco-Duas Caras não aparece na HQ, mas pode-se dizer que DeCicco era duas caras: um doce romântico ao conquistar Todd, instável e abusivo depois de se casar. A virada da moeda também pode estar ali para sugerir suas ligações com a máfia. O clichê do “gângster que joga cara ou coroa” surgiu com o personagem de George Raft em Scarface (1932) e foi parodiada inúmeras vezes desde então.
    2 – Groucho Marx, agachado – ver p3q2
    3 – Oliver Hardy, d’O Gordo e o Magro – ver p3q3
    4 – Stan Laurel, d’O Gordo e o Magro – ver p3q3
    5 – Homem de chapéu com faixa branca: o comediante Harry Langdon – ver p3q3

    Harry Langdon

    6 – Homem com chapéu de marinheiro: o ator Chester Morris, interpretando John Hawks no filme Corsário (Corsair, 1931), que Todd também estrelou. Mais sobre Morris nas páginas 2, 3 e 6.

    Chester Morris

    7 – Mulher de óculos: a atriz Jewel Carmen, esposa de Roland West – ver páginas 2-4 e 6. (Há uma imagem muito similar à que aparece aqui em LaDoTT, que tem a legenda “Jewel Carmen no inquérito do legista”)

    Imagem de Jewel Carmen em 1939 via benny-drinion.blogspot

    8 – Homem de terno preto e camisa branca: o diretor Roland West, que dirigiu Todd no filme Corsário (1931), e foi amante dela por anos. West aparece ao longo da HQ. (O’Neill retrata West principalmente de paletó e uma camisa branca de gola larga – como ele aparece em várias fotos de 1935, ano da morte de Todd.)

    Roland West em 1935 – foto via Benny Drinnon

    9 – As mãos com luvas aparentemente são do misterioso “Morcego” titular dos filmes de 1926 e 1930 de Roland West.

    Carta do Ás de Espadas para Todd – imagem do livro Ice Cream Blonde

  • Bilhetes na direita inferior:
    – “É seu Último Aviso” é a segunda carta do “Ás de Espadas”, o chantageador de Todd. Ver p5q4.
    – “O MORCEGO” [imagem de morcego] é do fim de uma carta do filme O Morcego (ver notas a p3q6).
    – “ÁS – sem gracinhas – [imagem do Ás de Espadas]” vem de uma carta do chantagista de Todd. Ver p5q2.

    Do filme O Morcego (1926) – imagem via Streamline

Página 1

quadro 1

  • Perceba que é a primeira vez que os leitores tiveram um vislumbre parcial do rosto da narradora. (A maior parte do rosto aparece de novo no reflexo do quadro 3, logo abaixo).

quadro 2

  • No que valha, outra imagem da aliança da narradora sem nome – que apareceu outras vezes, primeiro em CP n. 3 p8q4 (Cinema Purgatorio vol. 1, terceira história).

quadro 3

  • “preço diferente para menores” – o uso de “menores”, e não crianças ou “por idade”, sugere referência a crimes cometidos por adultos ou menores de idade.
  • “Sexo, Nunca! Somos Britrífides!” [“No Sex Please, We’re Triffids” no original] mistura No Sex Please, We’re British (peça de teatro que virou filme em 1973) e O Dia das Trífides (livro de ficção científica que já foi adaptado para cinema, televisão e rádio). As trífides são plantas carnívoras ambulantes, tal como O’Neill ilustrou.
    Moore já citou as Trífides como referência em entrevistas, como nesta ao Heroes & Monsters de Jess Nevins (página 235):

    Moore: “[…] quando li [O] Dia das trífides, de John Wyndham, onde as cenas que mais me marcaram são as da humanidade cega vagando por aí, embebedando-se e suicidando-se porque não conseguiam aguentar a nova realidade em que haviam se metido. Há um elemento muito banal na ficção apocalíptica britânica que eu acho que deixa tudo mais tenebroso, mais comovente. (…)

quadro 5

  • Perceba que o T em “PREDESTINO” é encimado por um morcego.

Página 2

quadro 1

quadro 2

  • O quadro imita o pedido de sigilo que abre o filme O Morcego.

    Aviso no filme O Morcego, de 1926

quadro 3

  • “Ouçam meus sussurros” refere-se aos sussurros do Morcego em Os Sussurros do Morcego (ver p3q5).
  • “Contemplem o sinal” refere-se à luz estilo bat-sinal representada aqui (ver notas a p3q5), assim como à temática de pistas e mistérios.
  • A “escada” refere-se à escadaria/sala oculta que faz parte da trama de O Morcego.
  • “Casa escura” refere-se ao clichê da “velha casa escura” que costuma ser cenário de romances policiais.
  • Identidade secreta” refere-se tanto ao clichê do assassino desconhecido quanto ao clichê do super-herói (ou supervilão) mascarado de gibi.
  • Este quadro faz referência tanto à ambientação quanto ao holofote-morcego do filme O Morcego. (Há uma imagem muito parecida em LaDoTT.) Os filmes d’O Morcego têm cenas em que velas se apagam misteriosamente.

Cena do filme O Morcego (1926)

  • A estátua com a espada e a cruz não aparece em O Morcego. Pode ser (mais um) símbolo da morte. Sugestões?
  • A voz do narrador parece a do criminoso mascarado conhecido como O Morcego.
  • Os personagens que olham para a luz do holofote são diversos envolvidos na vida de Thelma Todd:
    • Homem – talvez Roland West (ver discussão nas notas do próximo quadro)
    • Mulher de chapéu – Jewel Carmen (ver notas da p4q1).
    • Casal – ?
    • Homem de robe – Pasquele De Cicco (ver p5q5).
    • Chester Morris em Corsário.
    • Careca – Lyle Talbot (ver p5q5).
    • Homem da direita – Cesar Romero (ver p5q5).

quadro 4

  • Retratados aqui: Roland West (usando a gola larga da capa) e Jewel Carmen. Os dois ainda estão perseguindo O Morcego em p3q5 e pegam O Morcego na p7 (onde há a letra J no vestido de Carmen).
    O homem aparentemente cumpre o papel do “Detetive Anderson” de O Morcego, mas não é desenhado com a aparência dele.
  • As janelas são desenhadas como se não fossem reais, um aceno ao expressionismo alemão (embora isto não se veja nos filmes O Morcego).

quadro 5

  • “Alguém que vocês conhecem. Ou não.” refere-se ao fato de ser raro uma figura mascarada revelar-se alguém a que o público ainda não foi apresentado. Talvez seja dica para a verdadeira “Revelação do Morcego” na p7.
  • Primeira menção a “Thelma Todd” (1906-1935). Ela foi uma famosa atriz de Hollywood, mais conhecida pelos papéis cômicos. Como se explora nesta edição, ela morreu sob circunstâncias misteriosas aos 29 anos.

Página 3

quadro 1

  • “Nascida […] 1906 […]” recapitula a biografia de Thelma Todd. A data é 1926, de modo que ela está “com apenas vinte anos”.
  • “Escola Paramount Picture” – Como já foi observado, Hollywood estava abalada por vários escândalos na época, então a Paramount decidiu tomar uma atitude singular para eliminar os problemas. Enviaram caça-talentos para reunir 20 meninas esperançadas, que tivessem talento impecável, e as preparou (sob rigorosa supervisão) para serem futuras estrelas de cinema. A maioria das alunas não conseguiu carreira em Hollywood, mas algumas sim, sendo Todd a mais famosa.
  • Roscoe Arbuckle fora destruído, o bode expiatório no aborto letal e imprudente de Virginia Rappe” é referência ao escândalo com “Fatty” Arbuckle, visto em Cinema Purgatório n. 1 (Cinema Purgatorio vol. 1, história 1). Tal como a morte inexplicada de Thelma Todd (nunca houve uma conclusão quanto a suicídio, homicídio ou acidente), Arbuckle nunca foi condenado por estupro. Arbuckle, em trajes de Keystone Kops (com um olho estourado como na edição 1), aparece boiando na piscina.
  • “Cinco anos antes” refere-se ao julgamento de Arbuckle, que aconteceu em 1921 e 1922.
  • Rudolph Valentino” era uma estrela famosíssima do cinema e símbolo sexual nos anos 1920. Faleceu em 1926. Ele aparece boiando atrás de Arbuckle.
  • Charlie Chaplin” foi um famoso comediante do cinema mudo. Lita, sua segunda esposa, divorciou-se dele em 1927. O escândalo em torno do divórcio levou alguns grupos a pedirem a proibição de filmes com Chaplin, mas sua popularidade era muito maior.
  • A imagem deste quadro (fora cadáveres e tubarões) baseia-se em uma foto de LaDoTT com a legenda “Foto de divulgação de Hollywood (coleção do autor)”.
  • Os tubarões referem-se metaforicamente ao modo como Hollywood tem fama de “devorar” quem trabalha na área.
  • Não fica claro quem é a mulher boiando com cara para baixo – Virginia Rappe, quem sabe? (Parece que a mão de Arbuckle dirige-se à virilha dela). Sugestões?

quadro 2

  • “Dançarina das Ziegfields” refere-se a quem dançava para os Ziegfeld Follies na Broadway.
  • Lina Basquette, esposa de Sam Warner” refere-se à mulher do sócio do estúdio Warner Brothers. Eles casaram-se em julho de 1925. Lina aparece em CP n. 6 p3q8 (Cinema Purgatorio vol. 2, terceira história). A representação dos Irmãos Warner como Irmãos Marx é um eco daquela edição; ver CP n. 6 para as referências a O Cantor de Jazz e o bebê.
    Thelma Todd esteve com os Irmãos Marx em Os Galhofeiros (Animal Crackers, 1930) e Os Gênios da Pelota (Horse Feathers, 1932).
    Em Os Galhofeiros, em dado momento Groucho fala da personalidade de Todd: “Você só anda recebendo proposta suja [dirty break]. Bom, podemos dar uma lavada e calibrada nos seus freios [brakes], mas vai ter que passar a noite na garagem.” A referência a passar a noite na garagem virou profética e sinistra.

quadro 3

  • A cena retratada aqui pode ser do quarto hospitalar de Lina Basquette (ou imita cena de um filme? Sugestões??). Embora ela tenha tentado cometer suicídio, sobreviveu e só veio a falecer em 1994.
  • Personagens da esquerda para a direita: Stan Laurel, Thelma Todd, Oliver Hardy, mulher com chapéu (talvez a mãe de Lina, Gladys, que cuidou da carreira de Lina até 1927) e Harry Langdon como O Homem Forte (The Strong Man, 1926).

    Harry Langdon em O Homem Forte, 1926 – imagem via Travalanche

  • Todd apareceu com a famosa dupla de comediantes O Gordo e o Magro nos curtas Vizinhas Camaradas (Unaccostumed As We Are, 1929), Confusão em Profusão (Another Fine Mess, 1930), Perfeito Imperfeito (Chickens Come Home, 1931) e Farra de Praxe (On the Loose, 1931), assim como nos longas Fra Diavolo (The Devil’s Brother, 1933) e A Princesa Boêmia (The Bohemian Girl, 1936, último filme com Todd em destaque).
  • Junto à famosa estrela do cinema mudo Harry Langdon, Todd estrelou os curtas Hotter Than Hot (1929), Sky Boy (1929), The Fighting Parson (1930), The Head Guy (1930), The Shrimp (1930) e The King (1930).
  • Junto ao roteirista/ator Charlie (ou Charley ou Charles) Chase, Todd estrelou os curtas Crazy Feet (1929), Snappy Sneezer (1929), Stepping Out (1929), All Teed Up (1930), Looser than Loose (1930), The Real McCoy (1930), Whispering Whoopee (1930), Dollar Dizzy (1930), High C’s (1930), Rough Seas (1931), The Pip from Pittsburgh (1931) e The Nickel Nurse (1932).
    Ao detalhar todos esses coadjuvantes famosos, é uma pena deixar passar as dezenas de curtas humorísticos que Todd fez com Zasu Pitts e Patsy Kelly, sem falar das dezenas de papéis em longas. O que está listado aqui é só um arremedo do seu currículo.
  • A garrafa que diz “veneno” lembra Alice no País das Maravilhas.

    “Não, eu vou olhar primeiro”, ela disse, “e para ver se não está escrito ‘veneno’”, pois […] ela não havia esquecido que, se você bebe demais de uma garrafa que diz ‘veneno’, é quase certo que vai lhe causar problemas, mais cedo ou mais tarde. Mas nessa garrafa não havia a palavra ‘veneno’ […]

    Alice com frasco similar

quadro 5

  • Todd estrelou Corsário, o filme de Roland West de 1931. Como era um papel dramático que contrastava com seu trabalho predominantemente cômico, Todd, por insistência de West, foi creditado como “Alison Loyd”.
  • Da esquerda para a direita: Roland West dirigindo, um técnico de filmagem anônimo, Thelma Todd e Chester Morris. O retrato de Morris tem a pose quase idêntica à do cartaz de Corsário incluído em LaDoTT; Todd, por outro lado, está olhando para West.

    Roland West

  • Corsário está online.

    Thelma Todd e Chester Morris em Corsário (1931)

quadro 6

  • “Alcunhas e alter egos” encaixe-se nas alterações de nome em Hollywood (ver quadro anterior), em super-heróis de gibi e no chantagista de Todd, o “Ás de Espadas”.
  • Mulher, Por que me Traíste? (The Unknown Purple) é um filme de ficção científica de Roland West lançado em 1923. A trama envolve uma luz púrpura que pode deixar as pessoas invisíveis, que parece ser relevante a esta “história de alcunhas e alter egos”.
    Esta luz púrpura também lembra a “luminosidade violeta” do conto de Lovecraft “From Beyond”, que está na edição 9 da Providence de Moore. A expressão “O Desconhecido” também é relevante, sendo o termo que se usava para o sobrenatural nos gibis da ACG que Moore leu quando criança, como se discute no capítulo “A Cold and Frosty Morning” de Jerusalem.
  • O Morcego (The Bat) é um filme mudo de suspense (online) que estrela a esposa de West, Jewel Carmen (ver abaixo).
  • Os Sussurros do Morcego (The Bat Whispers, 1930) é um remake falado de O Morcego (online).
    Estes filmes foram influência significativa (e não creditada) para Bob Kane na criação do super-herói dos quadrinhos Batman. Entre os elementos, há:
    – Um homem usando um traje de morcego para esconder a identidade e inspirar terror, que também passa bastante tempo escalando cordas e espreitando de telhados.
    – A estética do expressionismo alemão, incluindo arquitetura urbana monumental e forte uso de sombras.
    – Um criminos que deixa bilhetes provocantes para a polícia, anunciando horário e local do crime que cometerá (como faziam muitos vilões de Batman). Na primeira aparição do Coringa, ele não apenas anunciou horário e local do crime que cometeria, mas usou o mesmo truque que se vê neste filme, de manipular o relógio da vítima para esta achar que o horário do perigo já passou.
    – Um automóvel equipado com recurso de cortina de fumaça.
    – Embora ausente da versão de 1930, O Morcego de 1926 também trazia um holofote com silhueta de morcego, muito similar ao Bat-sinal que surgiu mais tarde.
  • O homem e a mulher aparentemente são West e Carmen – ver p2q4.
  • A ambientação é o telhado que aparece bastante no Morcego de 1926 e brevemente no remake de 1930.

Página 4

quadro 1

  • Da esquerda para a direita: Carmen, West e Todd.
  • Jewel Carmen foi atriz (inclusive n’O Morcego de 1926) e esposa do diretor Roland West, também durante o caso de West com Todd. OS detalhes sobre os primeiros escândalos com Jewel Carmen etc. parecem precisos. Ela casou-se com West em 1918.

    Jewel Carmen em O Morcego – imagem via Movies Silently

quadro 2

  • “Depois do fracasso de Corsário” refere-se a Corsário ter sido o último filme de West.
  • “Tirada da numerologia” se explica em LaDoTT.
  • “[West] seguiu em seu romance [com Todd]” é verdade, embora seja uma simplificação. Os dois “terminaram” pouco depois de Corsário (já se disse que o casamento de Todd aconteceu quando ela ainda estava abalada com o fim da outra relação ou para deixar West com ciúmes). Eles se envolveram de novo após o divórcio de Todd, em 1934, quando West pediu a Todd para emprestar seu nome (e relações públicas) para um restaurante em que ele ia investir.
  • Da esquerda para a direita: Todd, West e Carmen.

quadros 3-5

  • Fora menção em contrário, todos estes detalhes têm precisão histórica. (Os horários exataos diferem entre cada relato, mas em não mais que uma hora.)

quadro 3

Todd e DeCicco

  • Primeira aparição de Pat DeCicco.
  • “Matrimônio fracassado com o playboy Pasquale De Cicco” refere-se ao casamento de Todd com Pasquale “Pat” DeCicco. Eles casaram-se em 1932 e divorciaram-se em 1934. Moore pode estar usando o nome “Pasquale” para enfatizar as supostas ligações que DeCicco tinha com a máfia.
  • Parece que a grafia mais comum do sobrenome “De Cicco” é “DeCicco”, sem espaço. A maioria das fontes na internet não usa espaço, embora um artigo do L.A. Times da época inclua o espaço.
  • “Coabitou” pode passar a impressão errada. Todd e West tinham residências separadas não muito longe do café, e tinham apartamentos à parte (mas com comunicação) em cima do café. Eles passavam bastante tempo juntos.
  • O “Thelma Todd’s Sidewalk Café” abriu em agosto de 1934. Ficava na Pacific Coast Highway, próximo ao Sunset Boulevard, em Los Angeles.

    O Thelma Todd’s Sidewalk Café – foto via Curbed

quadro 4

  • “No dia 14” refere-se a 14 de dezembro de 1935, um sábado.
  • O “Café Trocadero” ainda era bem novo na época, tendo inaugurado em 1934.
  • “3h15” seria, tecnicamente, a madrugada de domingo, 15 de dezembro.
  • Aparentemente O’Neil usou de referência uma foto da escadaria que levava do nível do apartamento (na Castellammare Drive) até a rua (a Posetano Road) onde ficava a garagem de Roland West – veja o diagrama imediatamente abaixo.
    (Valha o que for, com base nas placas de rua – Castellammare Drive e Breve Way – a escadaria da foto de 1935 na verdade fica a oeste do restaurante de Todd – compare com a rua atual. Há várias escadarias parecidas nos morros desta zona. É provável que o chofer dela tenha deixado Todd em uma escadaria próxima, que ia da Pacific Coast Highway até o apartamento de Todd).

    Escadas do Thelma Todd’s Café – foto da polícia via My Love of Old Hollywood

  • Um desenho de jornal da região entre o café e onde o corpo foi encontrado.

    Mapa da região do crime que mostra café de Todd e casa de West – imagem via Hollywood Revue

quadro 5

  • Thelma Todd foi encontrada morta na manhã de segunda-feira, 16 de dezembro de 1935. Ela foi descoberta no assento do carro estacionado na garagem de Roland West. Como Moore e O’Neil tratam, há várias possibilidades de culpados do seu homicídio: Roland West, Jewel Carmen, Pat DiCicco, a máfia. Também especulou-se suicídio. Sua morte foi decretada acidental, provocada por monóxido de carbono (do escapamento do carro) na garagem fechada. Álcool pode ter sido um fator agravante.
  • Este quadro baseia-se minuciosamente em uma fotografia feita pela polícia.

    Corpo de Todd – imagem via Silent Movie Blog

  • “Estacionou nas garagens adjacentes” é verdade, embora a situação de estacionamento aparentemente fosse bem complicada. Uma postagem de blog sobre Thelma Todd explica:

    “A duas ruas para os fundos do café e a mais ou menos umas cinco quadras de distância ficava a mansão de Roland e uma garagem menor que ficava numa curva descendo o morro logo à frente. Não era conveniente, mas era o único lugar para Thelma e Roland guardarem os carros à noite. Eles tinham um sistema que deixava a situação palatável em termos de estacionamento. A cada manhã da semana, a caseira de Thelma, Mae Whitehead, levava o próprio carro até a garagem, tirava o Phaeton de Thelma, estacionava o seu no lugar e aí dirigia o carro de Thelma até a frente do café, para que Thelma tivesse acesso ao veículo assim que precisasse. Por volta da meia noite, todos os dias, o barman Rogers conduzia o carro de Thelma de volta à garagem, sempre entrando de ré para que Mae pudesse tirá-lo com facilidade na manhã seguinte. Thelma raramente tinha que percorrer as cinco quadras para pegar o próprio carro ou para guardá-lo de noite. Roland dirigia um Hupmobile, que guardava na caragem ao lado do carro de Thelma.”

    Ver também o desenho da região que saiu no jornal, acima.

  • “Lincoln Phaeton” refere-se ao Lincoln cor de chocolate de Todd, ano 1934.

Página 5

quadro 1

  • O’Neill baseou a imagem do “cartão de Natal jocoso” nesta foto e numa descrição (possivelmente errônea) do LaDoTT. “Thelma usando roupas infantis, decorando uma árvore de Natal para o Papai Noel”.
  • “Ameaças de morte” – ver próximo quadro.

    Foto de Natal de Thelma Todd – imagem via Benny Drinnon

quadro 2

  • Esta carta (a primeira do Ás de Copas) foi recebida em 25 de fevereiro de 1935. Pode-se ver um trecho da carta na capa.

quadro 3

  • Esta ambientação parece a entrada da sala secreta em O Morcego ou Os Sussurros do Morcego. O vestido de Todd com o coração parece muito específico, mas não corresponde a nenhuma versão de foto que encontramos.
  • “As ameaças eram reais”: outras cartas do ás continuaram a chegar.
  • “Assalto coincidente” refere-se a um assalto à casa de Todd em 27 de junho de 1935.
  • “Mansão assombrada” é outra referência ao velho clichê da mansão antiga.

quadro 4

  • Todd está quase no alto da escada que aparece em p4q4.
  • Edward Schiffert entregou-se em 5 de novembro de 1935, para exonerar o homem que havia sido falsamente acusado de ser o Ás em agosto do mesmo ano.

quadro 5

  • “uma festinha ainda naquele fatídico dezembro” vem de um relato em LaDoTT, de uma entrevista que Basquette concedeu em 1990. A data da festa é “incerta”.
  • Retratados, primeiro plano, da esquerda para a direita:
    • Lina Basquette – atriz, viúva de Sam Warner – ver p3q2-3
    • Lyle Talbot – Ator que viria a interpretar o Comissório Jim Gordon, aliado de Batman, e Lex Luthor, inimigo do Superman (daí “famoso por interpretar o arqui-inimigo calvo de um herói mascarado”). Talbot é retratado careca, embora é quase certo que na época não fosse.

      Lyle Talbot como Lex Luthor – foto via Superman Wikia

    • Thelma Todd
    • Cesar Romero – ator que viria a interpretar o Coringa (daí “bandidos loucos que baseavam suas personas em cartas do baralho”), retratado durante uma risada à la Coringa.
  • Atrás da mesa:
    • Homem com barba mal feita?
    • Homem mais velho?
    • Pasquale DeCicco – O produtor e ex-marido de Todd, que se dizia ter ligações com a máfia. A referência ao smoking e “playboys taciturnos” pode ter sido uma opção para aproximá-lo de Bruce Wyne.
    • Johnny Roselli – mafioso de Hollywood. (Aqui identificado erroneamente como Johnny Rossellini).
  • Segundo LaDoTT, a atriz Lina Basquette (ver p3q2-3) tinha uma relação com o mafiosso Johnny Roselli.

Página 6

quadro 1

  • A “amiga” que afirmava ter conversado com Todd foi Martha Ford, esposa do ator Wallace Ford.

    Martha Ford – foto via Benny Drinnon

  • Ford está comunicando-se simultaneamente por telefone e por um tabuleiro Ouija, um aparato que supostamente serve para comunicação com os mortos. A cena retratada ecoa uma do início de Os Sussurros do Morcego onde as personagens Cornelia van Gorder (interpretada por Grayce Hampton) e a criada Lizzie Allen (interpretada por Maude Eburne) usam um tabuleiro Ouija. (Valha o que for, o laço na cabeça da criada O’Neill parece mais o da Lizzie Allen do Morcego de 1926, no qual é interpretada com brilhantismo por Louise Fazenda.)

    A cena do Tabuleiro Ouija em Os Sussurros do Morcego – via YouTube

quadro 2

  • Quanto à “retração subsequente” de Jewel Carmen (esposa de Roland West – ver p4q1): Carmen não havia falado de ter visto Todd quando falou com a polícia pela primeira vez. O depoimento dela tinha outros problemas, o que lançou sérias dúvidas quanto à sua veracidade.
  • O depoimento de Carmen afirmava que ela estava dirigindo, diferente do que é retratado aqui.
  • “Autores posteriores” – provavelmente a partir de Nicholas Hodern em 1976 (segundo LaDoTT).
  • Apesar do depoimento dúbio de Carmen, nunca houve um vínculo com credibilidade entre o mafioso “Lucky Luciano” e Todd, nem mesmo prova de que Luciano esteve em Hollywood. Isto segundo William Donati, que, além de LaDoTT, também escreveu uma biografia bem pesquisada sobre Luciano.

    Foto de Lucky Luciano na polícia via Wikipédia

quadro 3

  • West “revelou que eles nunca haviam sido casados de verdade” provavelmente foi feito para evitar um gasto pesado no divórcio. O processo acabou em acordo por US$ 50 mil.
  • Perceba que as três “fachadas” são bidimensionais.
  • As duas fachadas da direita parecem baseadas nas fotos abaixo.

    Fotos de Jewel Carmen via Benny Drinnon

  • A imagem menor de Carmen à direita usa uma boina parecida à imagem da capa.

quadro 4

  • “Deixando a Jewel um dólar” refere-se a uma tática jurídica comum na época. A pessoa que seria normalmente herdeira, mas a quem se legava nada poderia contestar o julgamento em tribunal; deixar um único dólar travava este recurso. A própria Thelma Todd deixou um dólar no testamento a Pat DeCicco.
    Outro detalhe misterioso é que West também deixou um dólar a certa Helen Knight, “que pode ser conhecida como Helen Knight West”. Não se sabe mais nada a respeito desta mulher. Será que West teve outra esposa-não-necessariamente-real?
  • “L. Lane” refere-se a Lola Lane, com quem Roland West casou-se em 1940. Não há dúvida de que Moore só lhe dá a inicial para chamar atenção à semelhança entre o nome dela e o da famosa namorada do Superman, Lois Lane.
  • A “confissão no leito de morte” foi supostamente dada a Chester Morris, o ator de Corsário, que o homem de terno preto aqui lembra (compare com fotos posteriores de Morris). Quando a matéria finalmente foi publicada, Morris já havia morrido.

quadros 5-8

  • A teoria retratada aqui é compartilhada por muitos (quem sabe a maioria) dos especialistas: Todd matou-se acidentalmente por envenamento por monóximo de carbono. É a teoria menos dramática (pelo menos do modo como costuma ser retratada), e por isso a que menos se apresenta no popular.

quadro 5

  • “Sem querer acordar Roland” faz referência a que Thelma tinha consigo a chave da porta – mas não a chave para o cadeado, que estava trancado. (Roland não sabia que só havia lhe deixado uma chave.) Em ocasião anterior, ao se ver trancada do mesmo jeito, Thelma conseguira acordar Roland.
  • A sombra forte faz eco ao uso de sombras nos filmes do Morcego, e em boa parte do gênero do cinema noir.

    Sombras selecionadas dos filmes O Morcego – imagens via YouTube

quadro 6

  • “Teria ela discutido com West?” é uma pergunta semântica intrigante, baseada no depoimento do próprio West, que incluiu frases ambíguas como “Discutimos, mas nunca com raiva”. Há relatos dramatizados da morte de Todd que dizem que antes West exigia que ela voltasse até as duas horas, ao que Todd supostamente respondeu que voltaria às 2h05. Embora o diálogo tenha acontecido, segundo relatos contemporâneos ele se deu em tom jocoso.
    • “Para ir à sua mãe” é um detalhe especulativos que não aparece nos autos usuais da teoria, mas é algo que se sugere no depoimento de West durante o inquérito.

quadro 7

  • “Estaria o ás de copas ainda à solta?” é uma teoria que pode-se excluir. O chantagista de Todd (Ver p5q2-4) não estava, mas Todd supostamente recebeu cartas perturbadoras e ameaçadoras de outros pouco antes de sua morte, e Roland West recebeu muitas cartas como estas após a morte dela.

    Foto de jornal da garagem

quadro 8

  • Este quadro mostra a parte externa da garagem, iluminada pelo farol de O Morcego. A garagem fica hoje na Posetano Road n. 17531, no bairro Pacific Palisades, Los Angeles.

 

Página 7

quadros 1-3

  • A máscara de morcego e o set do telhado são parecidos (mas não idênticos) aos do filme O Morcego.

quadro 3

  • Era a vassoura de pé que segurava o traje de morcego.
  • O “J” na lapela aparentemente confirma que está é Jewel Carmen

quadro 4

  • Então, o narrador do filme seria de fato O Morcego? Quem sabe dizer…
  • Ironicamente, West disse a jornalistas em fins de 1935:

    […] é melhor que o inquérito seja exaustivo e minucioso. Daqui a dez anos, ninguém vai conseguir vir com uma nova solução para o dito “Mistério de Todd”, se é que há mistério, porque aí as autoridades vão conseguir pegar essa pessoa de acordo com os fatos.

    Evidentemente, mais de oitenta anos depois, novas teorias seguem pipocando.

quadro 5

  • Adam West estrelou como Batman no seriado de tevê dos anos 1960.

Página 8

quadro 1

  • “As pessoas sempre correm a concluir que tem sangue” ou, como a narradora fez no capítulo anterior, a concluir que tem sexo. Perceba que o pensamento seguinte tem a ver justamente com isto.

quadro 2

  • “Amor Gelado” – ver CP n. 4, p8,q3-4 (Cinema Purgatorio vol. 2, primeira história)
  • “Tinha aquele velho na ponta da fileira, o que a deixou nervosa” – Ver CP n. 7, p1q4 e p8q5 (Cinema Purgatorio vol. 3, primeira história).
  • Parece que este quadro é iluminado por um globo de espelhos.

quadro 3

  • O velho não mudou a postura. Agora nota-se que ele está cercado por moscas. Também há cabelinhos brotando da cabeça que era calva, provavelmente devido à contração post-mortem do couro cabeludo. O suposto odor não incomoda os outros clientes, embora possa ter chamado atenção do gato.
  • O gordo (e o gato preto) também foram vistos perto do velho em CP n. 7, p1q4 (Cinema Purgatorio vol. 3, primeira história). O gordo pode ser o ator Sydney Greenstreet.

quadro 5

  • Primeira menção a “Geraldine”, que pode ser a “ela” de quem a narradora costuma reclamar, já duas vezes. Em CP n. 5, p2q5 (Cinema Purgatorio vol. 2, segunda história), a narradora diz: “Poderia ter sido [feliz] com Richard… se uma certa pessoa não tivesse interferido.” Depois, em CP n. 6, p8q3 (Cinema Purgatorio vol. 2, terceira história), ela fala em “algumas [pessoas] são capazes até de conspirar contra você, tentar arruinar a sua vida… tire ela da sua cabeça.”
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TRADUZINDO

#traduzi, março/abril 2020

Um listão das minhas traduções que saíram nesses dois últimos meses. Checklist, se você quiser chamar de checklist. Planeta Estranho é a coletânea de tiras do Nathan W. Pyle publicadas no Instagram. O livro saiu no final do ano nos EUA e estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times (neste exato momento continua por lá, em nono lugar). Não só o planeta é estranho, mas a tradução é estranha, pois os personagens falam errado e [ . . . ] LEIA MAIS

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ESCREVENDO

Exposição Quadrinhos no MIS

(Estou recuperando textos que publiquei fora daqui. Este eu soltei no Facebook em 14/11/2018.) Ontem eu devia estar no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Não fui por motivos de uma barriga com um bebê que quer sair da barriga. Não a minha barriga, mas vocês entenderam. Pelo mesmo motivo, acho que só poderei ir ao MIS no ano que vem. O que está rolando no MIS é a maior exposição sobre Quadrinhos – em abrangência, em [ . . . ] LEIA MAIS

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mis
ESCREVENDO TRADUZINDO

Spiegelman e o Caveira Laranja

(Estou recuperando textos que publiquei fora daqui. Este eu soltei no Facebook em 21/8/2019.) Traduzi o comentado texto do Art Spiegelman sobre a Marvel e o Caveira Laranja a convite da Quatro Cinco Um. Está aqui. Achei curioso o quanto esse texto repercutiu, ainda em inglês. Além dos típicos comentários rápidos de Facebook e Twitter, vi várias matérias por aí, na mídia especializada e na não-especializada brasileira. E aqueles inevitáveis comentários dos “ui ui ui não mistura política com meus [ . . . ] LEIA MAIS

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CINEMA PURGATORIO ANNOTATO TRADUZINDO

Cinema Purgatorio Annotato: volume 3, história 2: “E As Trevas Mexeram-se”

O site Cinema Purgatorio Annotato compilou uma série de apontamentos sobre Cinema Purgatorio, a série comandada por Alan Moore e Kevin O’Neill. É um guia para ler os contos da sala de cinema captando todas, ou quase todas, as referências que os autores despejam para contar a macabra história de Hollywood. Traduzi o volume 3 de Cinema Purgatorio (Panini, outubro/2019, 152 páginas, disponível aqui) e, como não podia deixar de ser, me servi muito do Cinema Purgatorio Annotato. Perguntei aos dois [ . . . ] LEIA MAIS

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