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Occupy Comics

E se o Alan Moore – o Alan Moore – publicasse um livro sobre a história da história em quadrinhos e ninguém desse bola?

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Porque, olha, é mais ou menos o que aconteceu. O livro não é exatamente um livro, mas um “ensaio” que saiu na Occupy Comicsrevista produzida quando o Occupy Wall Street era notícia e que agora foi lançada em coletânea. O ensaio, se entendi direito, foi publicado em capítulos primeiramente ao longo das três edições da revista e na coletânea sai com todas suas 23 páginas.

Sim, 23 páginas geralmente não rendem um livro. O caso é que estas 23 páginas saíram num formato de gibi americano, corpo 9, margem praticamente inexistente e algumas poucas ilustrações. É um samizdat. Se este preview corresponde às duas primeiras páginas, o texto tem um total de 16 mil palavras. (25,000 Years of Erotic Freedom, ensaio de Moore que saiu em formato de livro, é menor: 12 mil.) Numa diagramação básica, renderia um livrinho de 50 páginas. Ainda sem as ilustrações.

Mas, ok, 23 páginas ou 50 páginas ou 16 mil palavras de quê? Bom, Moore começa em proto-cartuns no Egito Antigo, passa pela origem da palavra cartoon pré-Renascimento, para em William Blake, Aubrey Beardsley e só fala de Yellow Kid aí pela terceira (densa) página. O mote do ensaio é ver os quadrinhos como arte popular produzida pelos baixos estratos com uma tendência crítica ao 1% dominante. Precisava, afinal, adequar-se à revista onde saiu. Não foge, porém, das linhas de raciocínio esquerdistas que Moore costuma demonstrar em qualquer texto ou entrevista.

É uma história de um ponto de vista bastante individual, cheia de omissões e cujas ênfases são escolhidas segundo os intentos do autor. Em vários pontos do texto, por exemplo, Moore detém-se nas pilantragens em torno da DC Comics, sua baleia branca preferida – a fundação por figuras mau-caráter, os autores que foram demitidos quando tentaram sindicalizar-se, a “Filipino Rate”, a substituição de roteiristas de verdade por fãs que escrevem por nostalgia e, claro, a exploração dos criadores de Superman.

Neste sentido de visão pessoal da história dos quadrinhos, o texto tem paralelos com Superdeuses, de Grant Morrison, que também pode ser definido como uma história de um ponto de vista bastante individual, cheia de omissões e cujas ênfases são escolhidas segundo os intentos do autor. Aliás, em alguns momentos o texto de Moore parece uma resposta a Superdeuses, como na tentativa que Morrison faz neste de limpar a barra da DC quanto a Siegel e Shuster. Moore rebate qualquer tentativa de racionalizar o tratamento que a DC teve com os Super-criadores. E na hora de falar do punhado de autores originais que surgiu nas HQs de super-herói nas últimas décadas, cita Neil Gaiman, Warren Ellis e Garth Ennis, convenientemente deixando Morrison de fora.

A principal referência de Moore, citada várias vezes, é Homens do AmanhãMas enquanto o livro de Gerard Jones atém-se à era de ouro, Moore segue pelos anos 50, dedica lindas palavras à EC Comics e segue a marcha com a Marvel de Stan Lee, a variedade dos quadrinhos britânicos dos anos 70, o código de ética, os blockbusters. Num dos momentos geniais, Moore interliga a queda do Muro de Berlim com a formação da Image Comics com a quebra do mercado norte-americano de HQs em meados dos anos 1990 e com a crise econômica global de 2008.

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Enfim: provavelmente é o maior texto sobre história das HQs que Moore virá a escrever na vida. Certamente merecia virar livro. E, infelizmente, é o único ponto de interesse de Occupy Comics, coleção sem nenhum outro atrativo.

Occupy Comics tem 160 páginas e saiu pela Black Mask Studios em abril. A editora foi criado a partir de um crowdfunding para a revista Occupy. Você compra a coletânea aqui ou as três edições em formato digital aqui.

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