TRADUZINDO

Tradução invisível

Comecei a fazer traduções para a Panini em 2009. Para a linha Vertigo, bem específico. Na época, o relançamento da Vertigo ainda não tinha sido divulgado. Tentei me meter no plano, sugerir séries, dar dicas. Leitor de Vertigo desde criancinha: eu.

Dei um monte de opiniões. Uma das poucas coisas que eu falei de brincadeira era que, se algum dia publicassem Os Invisíveis, eu prometia que me esforçava para traduzir. Porque, haha, tinha tanta chance de publicarem Invisíveis quanto, sei lá, Flex Mentallo. Né?

Sete anos depois, o relançamento da Vertigo na Panini é um sucesso justamente porque não ouviram nada do que eu disse. E tenho na mão os 8 volumes brasileiros de Invisíveis. Pela primeira vez completa no Brasil. Traduzi todos.

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Para mim a explicação que diz tudo é a do King Mob no volume 1. Página 212:

“A gente tá chegando no apocalipse e o negócio pode pender pra qualquer lado. A gente tá na reta final pra festa planetária sem fim ou pra um mundo que lembra Auschwitz.”

Marquês de Sade: “(…) Não quero viver no mundo perfeito de outro, apenas no meu.”

King Mob: “Mas é isso aí. A gente tenta puxar pro lado em que todo mundo tenha o mundo que quiser.”

É um jeito de entender Os Invisíveis: e se os movimentos utopistas (socialistas, anarquistas, situacionistas etc.) tivesse como chegar na utopia? Utopias individuais, hedonistas, cada um vivendo o mundo que quer? Os Invisíveis são esse movimento. É uma premissa tão fantasiosa quanto gibi de super-herói. Mas Os Invisíveis É um gibi de super-herói.

Uma das histórias é inclusive a representação da utopia hedonista individual todo-mundo-tendo-o-mundo-que-quiser: “Somos Todas da Polícia…”, no volume 6 (que foi um parto para traduzir).

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Os Invisíveis é genial, se você ouvir uma carrada de gente por aí que leu na época em que saiu. Também é coisa de gênio se você entrar na onda dos livros que se escreveram sobre a HQ. Livros, no plural. Conheço três.

Um não é exatamente um livro. É o Barbelith, um site/fórum criado por fãs da série quando ela ainda estava rolando. Alguns envolvidos compilaram o que os participantes do fórum escreviam sobre as referências da série, pistas escondidas, interpretações, e fizeram as Invisibles Annotations. Estava no ar até pouco tempo em www.barbelith.com/bomb, mas parece que não está funcionando mais.

Anarchy for the Masses: The Disinformation Guide to the Invisibles é o que o título promete. Os autores se abasteceram no Barbelith para fazer um guia de referências e comentários alguns anos depois de Invisíveis chegar ao fim. Inclui várias críticas negativas a pontos da série e é bem informada sobre os bastidores de produção.

Our Sentence Is Up: Seeing Grant Morrison’s The Invisibles é o mais recente (saiu em 2012). Faz comentários sobre cada edição em tom onanístico e inclui uma longa entrevista com o Morrison uma década depois da conclusão da série.

Todos me serviram, e muito, na tradução. Mas, olha, mesmo com os três, traduzir ainda exigiu uma porrada de pesquisa.

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Os Invisíveis tem vários contras, se você se embrenhar sério no esquema. O primeiro é que, se você for lendo e relendo com atenção (a leitura que se faz como tradutor), há problemas que vêm do fato de ela ter sido produzida dentro de um cronograma de gibi mensal. Os desenhos dificilmente são tudo que podiam ser e há várias páginas que, tanto na arte quanto no roteiro, têm aquele cheiro de “foi o que deu”.

Enquanto a série estava rolando e vivendo altos e baixos de crítica e de vendas, o Morrison insistia, como diz King Mob, que estava “tudo nos conformes”. Já na segunda edição ele se contradiz, ao revelar que sua abdução alienígena – que mudou os rumos da sua vida e de tudo que escreveu – ocorreu depois de ele escrever o começo de Invisíveis. A mudança de tom para o tomo 2, quando a série estava tentando se vender como filme, também não ajuda. Mais à frente, os atrasos no roteiro e a insistência do careca escocês em encaixar amiguinhos que ele conhece pelo mundo (tipo um indígena que aparece para nada e some sem explicações no início do tomo 2) também estragam essa ideia de um masterplan.

Incluir amiguinhos, contar experiências pelo mundo e borrar as fronteiras entre autor e King Mob são alguns dos pontos que levam gente a chamar a série de indulgente, feita só para Morrison descarregar tudo que passava pela cabeça na época. Bom, ele nunca negou que era isso mesmo. E o tema da série era justamente utopias individuais – Morrison vendeu a dele pra nós.

Mas o grande contra de Os Invisíveis talvez seja ler Os Invisíveis hoje, nos anos 2010. Era uma série feita para os anos 90, com referências dos anos 90, para ser lida enquanto Arquivo X, britpop e barulhinho de modem tocavam de fundo. Para ler depois de 2012, ou para lançar ela depois de tanto tempo, seria legal ter pelo menos uns prefácios situando o leitor quanto a Pamela Anderson, Blur, Illuminatus. Propus isso, mas faltava espaço e orçamento nos volumes. Do jeito que ficou, espero que cada leitor abra as edições pelo menos do mesmo jeito que começa a assistir a um filme antigo.

Usando a teoria propagandeada pelo próprio Morrison – a Hipótese Sekhmet, sobre como os ciclos solares de 11 anos fazem as culturas juvenis (incluindo a pop) alternarem entre revolucionismo e conservadorismo -, Invisíveis se encaixou em um período revolucionário que foi até a virada do milênio. A onda conservadora pós-2001 ajudou a apagar todo esse contexto de fundo que existia para ler Os Invisíveis. E mesmo que o ciclo já tenha virado, ainda não me sinto livre do conservadorismo (o que pode ser um problema com a minha idade, não geral).

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Comecei a tradução do primeiro volume em 5 de dezembro de 2013. Entreguei a tradução do último em 21 de outubro de 2015, fora uns acréscimos que o editor pediu há mês e meio. Os acréscimos foram a tradução do “Eton Boating Song” e de outros hinos que eu havia sugerido manter em inglês. Músicas sempre são problema.

Traduzi 1342 páginas de HQ (pagas inegociavelmente a R$ 6,50 cada), sendo que o documento de tradução cabe em 444 páginas do Word e tem 189 notas de explicação só para os olhos do editor. As notas são para as referências mais complicadas, opções minhas que não se explicam tão fácil.

O que foi mais complicado: os poemas do Shelley, dos quais não encontrei tradução alguma para o português (há dois no volume 1); tentar escrever como Michael Moorcock; tentar escrever como Wilhelm Reich; tentar botar algum sentido nas piadas e referências proposital e absurda e massacrantemente britânicas do tomo 3; toda a “Somos Todos da Polícia…” (que originalmente era um conto em prosa do Morrison).

O mais brochante: ainda queria que minha história preferida, “Best Man Fall”, ficasse “Marcha Soldado”. Tem a ver com a história e com a referência infantil – best man fall é uma brincadeira antiga das crianças inglesas. Ficou “Bom em Queda”.

O mais gratificante: alguém se deu ao trabalho de me mandar um comentário dizendo que achou legal “120 Days of Sod All” virar “Os 120 Dias de se Fôda”.

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Encaixei o início da tradução de Patrulha do Destino logo na finaleira da de Invisíves. Patrulha é um trabalho anterior de Morrison, com personagens que não são criação sua mas onde ele também encontrou uma maneira de encaixar tudo que passava pela cabeça entre fins dos anos 1980, início dos 1990. Aí tem um ponto importante na biografia do escocês: entre 1990 e 1995, ele conseguiu renunciar às preocupações financeiras mundanas com o sucesso de Asilo Arkham e outros projetos que deram muito certo no mercado aquecido. Ele começou em Patrulha (e Homem-Animal) como frila pagando aluguel. Quando escreveu Invisíveis, morava num castelo quando não estava viajando globo afora.

A tradução de Patrulha é mais fácil em alguns aspectos – há referências obscuras, mas em quantidade bem menor -, mais difícil em outros – experimentos como escrita automática, anagramas, acrósticos e outros.

O que fica aparente nas duas séries, e em tudo do Morrison desde aquela época, é como ele é tecnicamente bom. Ele sabe armar cenas, sabe fazer o leitor chegar a determinada emoção, sabe armar um conflito com o qual você se importa. Também fica claro que, ainda no início de carreira, ele se cansou desse beabá e resolveu experimentar. Nem todo experimento dá certo. Alguns experimentos envolvem um projeto inteiro. Outros, como é o caso de Os Invisíveis, são uma sucessão de experimentos, sendo que alguns funcionam e outros não. Está tudo misturado no mesmo pacote. Gostei de me embrenhar ali, mas também gostei de finalmente sair.

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4 Comentários

  • Sanzio says:

    Oi, Érico! A pesquisa de referências deve ter dado uma trabalheira mesmo. Você chegou a comparar o seu trabalho, mesmo que só por curiosidade, com as traduções feitas pelas editoras Brainstore e Magnum, que lançaram Os Invisíveis anteriormente?
    E quanto ao título do volume 3 – Entropy in the U.K. – qual o real motivo de não ter sido feita tradução? Lembro que o Denardin teve que responder a várias perguntas sobre isso no hotsite da Panini, mas não deixou claro. Fiquei sem entender, até porque “Abocalipse” foi uma boa sacada.
    Mais uma coisa. Não quero parecer chato, mas gostaria apenas que houvesse uma atenção na escrita correta do futuro do pretérito (ao invés do pretérito imperfeito) nas falas das HQs. Todas os volumes da Patrulha do Destino estão com esse tipo de mancada. Já no segundo parágrafo do seu texto aqui vemos um exemplo. Achei até que fosse a tentativa de usar uma fala coloquial para os personagens, mas pelo visto não é. Talvez isso seja trabalho para o revisor, embora eu não saiba como funcione esse trabalho na editora.

    • Érico Assis says:

      Olá, Sanzio! Li as edições da Magnum na época que saíram e acho que consultei sim antes de fazer minha tradução. Às da Brainstore, não tive acesso.
      Entropy in the UK: defendi que qualquer tradução próxima do original ia perder a referência a “Anarchy in the UK”. Era isso ou praticamente inventar um título novo. Sou chato com as referências a música – prefiro manter no original.
      Fiquei cabreiro quanto às mancadas com conjugação. A princípio, sim, tem vários personagens em que tento manter o tom coloquial em Patrulha do Destino. O Cliff é o principal. Mas no que eu me enganei neste texto do blog?

  • Marlon Carrero says:

    Post muito interessante, obrigado por compartilhar sua experiência traduzindo a obra, Érico! Uma aula para quem acha que basta apenas saber ler o outro idioma para traduzir de forma competente.
    Eu li apenas o volume 1 de Os Invisíveis, traduzido, numa época em que o nome Grant Morrison ainda não significava nada para mim. Achei a história extremamente confusa, sem rumo, e ignorei os volumes seguintes.
    Após me encantar com sua fase no Homem-Animal (até me emocionei no fim da última edição, Deus Ex Machina), ler Asilo Arkham e Grandes Astros: Superman (também fiquei emocionado em vários momentos desse trabalho), além de ter achado fascinante a forma como resolveu abraçar o lado fantástico do Batman recentemente, me pergunto se, hoje, eu gostaria de Os Invisíveis. Suspeito que não, ainda pelos mesmos motivos.
    É claro que o Grant Morrison constrói várias de suas histórias para que a resolução seja bombástica e amarre todas as pontas soltas, porém, ao mesmo tempo, ele também me parece alguém muitas vezes mais preocupado em ‘se divertir com a jornada’ do que pensar em um fim perfeito.
    Como você disse, ele é um autor que gosta de experimentar e nem sempre os experimentos dão certo. As anotações do Grant nos extras do Asilo Arkham dão um indício de quão obcecado ele pode ficar quando começa a escrever. No caso de Os Invisíveis, a jornada não me divertiu e a história não me deixou intrigado o suficiente para que eu buscasse um desfecho, mas ainda bem que temos pessoas ousadas como ele fazendo coisas estranhas na indústria.
    Em seus melhores momentos, os quadrinhos do Grant Morrison validam o meio em que estão. Desejo sorte para quem tentar adaptar uma boa história dele para outra mídia!

  • Paulo says:

    Érico, você podia postar uma dessas páginas de word com a tradução, e a página original de HQ, pra gente fazer um cotejo (nem precisava ser de Os Invisíveis, só queria ver como você faz mesmo).
    Abraço.

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