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Seis Coisas Sobre Dois Irmãos

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1. Apesar do crédito duplo na capa, Dois Irmãos é, até onde se percebe, 100% desenhada por Gabriel Bá. Obviamente não é um erro: Fábio Moon e Bá dividem roteiro, provavelmente decupagem, layouts, edição do texto original. Eles também costumam comentar que, independente de quem desenha, eles sempre vão assinar trabalhos autorais à moda siamesa. A edição não especifica quem fez o quê.

Dois Irmãos, porém, tem a marca do traço de Bá. Se em algum momento o traço dele e de seu irmão gêmeo ja foram confundidos – embora Moon sempre tenha tendido para o pincel e Bá para a caneta -, talvez esta seja a obra em que a distinção fique mais clara. Como acontece normalmente na evolução de muitos quadrinistas, Bá chegou a uma nova síntese que tanto define sua forma de estilizar as formas quanto reduz o número de traços que utiliza. Caso se pegue trabalhos recentes de Moon, percebe-se a mesma coisa – mas em outro rumo, igualmente pessoal.

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2. Tem vários momentos da arte de Bá em que foi impossível não pensar em Flávio Colin. Colin também chegou a uma estilização própria e confiável, até com menos linhas do que as que Bá usa atualmente. Mas, como já falei, isso acontece com vários artistas. Será que tem algo de, sei lá, “brasileiro” que faz eu ver Colin nos traços atuais de Bá?

3. A estilização também dá um aspecto infantil à obra. Esse aspecto talvez se reforce por conta da profusão de crianças que aparecem nas páginas, com sorrisos em pequenos “u”. Como o álbum é em preto e branco, esse aspecto infantil é menos pronunciado. Mas como não há nem tons de cinza e as linhas tendem ao mínimo, também parece que o álbum foge da arte que se costuma pensar para “quadrinho adulto”.

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4. O primeiro capítulo de Dois Irmãos é uma das maiores realizações na carreira de Moon e Bá. É uma apresentação atabalhoada dos temas da história, que propositalmente deixa o leitor perdido indo e voltando no tempo, jogando uma pilha de nomes libaneses e cenas que só vão se explicar mais à frente. É só no capítulo 2 que a trama assume ritmo cronológico. Não consigo pensar em um ponto de comparação, mas lembro vagamente de filmes que usam o mesmo recurso (do David O. Russell, quem sabe?). Acredito que o Dois Irmãos de Hatoum – que li, em parte, há bastante tempo – também não comece assim.  O mais próximo a que lembro de Moon e Bá terem chegado desse experimentalismo foi na penúltima edição de Daytripper.

5. Leia com calma. Um capítulo por dia, quem sabe? É interessante conviver com os personagens, deixar eles andando pela cabeça enquanto você não está lendo, antes de chegar ao fim da história. Como seria ler o livro de Hatoum.

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6. O nome de Milton Hatoum aparece relativamente pequeno na capa e não está na lombada. Os nomes de Moon e Bá estão bem ressaltados. Dê uma olhada em outras adaptações de literatura para quadrinhos por aí e perceba quantas fazem o inverso: o nome do autor literário é esmagador sobre os autores da adaptação ou, em alguns casos, nem se vê o nome dos adaptadores na lombada (ou na capa). Prefiro a solução de Dois Irmãos: a obra adaptada é dos adaptadores, não do autor adaptado. Sim, Milton Hatoum concebeu esta história e há frases na adaptação que ficam exatamente como ele as escreveu. Porém, nos quadrinhos, no cinema, no teatro, o fato de que estamos vendo uma adaptação e não o texto literário é forçosamente evidente: a narrativa principal é visual. É a Dois Irmãos de Moon e Bá, não a Dois Irmãos de Hatoum – que continua existindo lá em versão comum, ebook e de bolso.

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5 Comentários

  • Thiago Borges says:

    Não consigo mais ver os irmãos com bons olhos depois de ter descoberto a tal história de plágio em “Daytripper”. Espero que eu consiga superar isso em breve.

  • [email protected]@LO says:

    A ”técnica” de ler um capitulo por dia usei em Daytripper. Foi uma boa experiência.

  • Luiz Gustavo de Sá says:

    Se Daytripper é ou não é uma produção plagiada, só a instância judicial poderia determinar e, para tanto, o depoimento pesssoal dos quatro envolvidos, arrolamento de testemunhas e a análise de provas documentais. Enfim, seria uma festa! O que, porém, não se discute é que os gêmeos são ótimos adaptadores – e isso caberia um parêntese até para o argumento do aludido plágio. Ato contínuo, basta voltar um pouco no tempo e verificar, por exemplo, a qualidade de Rolando e O Alienista, duas obras que adaptam respectivamente um poema épico e um conto. No frigir dos ovos, qualquer profissional que lida com o cotidiano da arte é um “tradutor/traidor” e não há nada demais nisso, porque o “original”, como diria o “Feio” – talvez com Borges na orelha -, é um filho de mil homens. Milton Hatoun foi bem representado e se fuçar mais um pouquinho até mesmo o Haroldo Maranhão, de Miguel Miguel, em Daytripper.

    Maravilha de texto, Érico.
    Esse seu sistema de comentários é desafiador!

  • Marcelo says:

    Tem certeza que isso é desenhado? Parece mais cagado…kkkkk

  • Marcelo says:

    Adaptação é o novo nome para roubar idéias alheias e distorcer até transformar em algo ridículo. O nome disso e presunção e arrogância.

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