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O Fabuloso Quadrinho Não-Brasileiro no Brasil em 2015

Ainda não tinha comentado por aqui, mas estou trabalhando como editor convidado de uma antologia chamada O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015. O convite veio da Narval Comix, mais exatamente do Rafael Coutinho e da Clarice Reichstul, para escolher (trechos das) melhores HQs de autores brasileiros que saíram entre junho de 2014 e junho de 2015. Até demos um entrevista pr’O Globo. Estamos na reta final de autorizações dos participantes e o livrão (vai ser grande) sai no FIQ, em novembro, depois em livrarias e o escambau.

Então, como passei relendo e lendo a megaprodutividade quadrinística brasileira nos últimos meses, paro um pouquinho pra falar de HQs legais que saíram no Brasil nesse ano – e que não têm autor brasileiro.

Claro que o critério não é apenas ser legal e não ter brasileiro. São HQs novas, ainda mais ou menos disponíveis em bancas (virtuais) e livrarias, que acho que se encaixam na categoria “vamos comemorar que isso foi (re)publicado” e também na importantíssima categoria “gibi para dar de presente”. Se você me convidar pro seu aniversário nos próximos meses, vai levar embrulho com um desses.

planetes1

Não lembro como cheguei a Planetes pela primeira vez, mas faz tempo. (Acabei de encontrar uma resenha que escrevi em 2005!) E como mangás são muitos e as sugestões de leitura são ainda mais, fica bem complicado lembrar porque li esse. Mas li, e já reli algumas vezes.

São histórias sobre exploração especial no futuro próximo. Entre os personagens principais, há catadores de lixo que juntam os detritos que a gente deixou em órbita e um movimento contra a presença humana no espaço. Makoto Yukimura, o autor, é daqueles nerds por astronautas e constrói tramas e desenhos com minúcias sobre tecnologia, astrofísica etc.

Mas o bonito da série é que, mesmo com a vastidão do espaço e todo o papo de “giant steps for mankind” no fundo, as histórias são sobre seres humanos vivendo coisas mundanamente humanas – meio para dizer que faz parte desse mundanamente humano querer chegar a esses lugares inalcançáveis, ter aspirações grandiosas como explorar o espaço.

Não sei como Planetes foi cair numa editora brasileira agora – a série original é de 1999-2004 – mas fico feliz que tenha saído. Serão 4 volumes, dos quais já saíram 3. A editora é a Panini e a tradutora é a Lídia Ivasa.

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Bone é uma opção tão óbvia, mas tão óbvia, que assusta a não-obviedade de se encontrar ela completa em livrarias do Brasil. Nos EUA, era um quadrinho que já vendia bem e era bem comentado quando era publicação independente de um carinha de Ohio, vinte anos atrás. Dez anos depois, virou um monstro editorial para público infanto-juvenil quando a editora de Harry Potter resolveu comprar, colorir e lançar em livrinhos.

É uma aventura Senhor dos Anéis com bem mais comédia e em traço de animação clássica. Os três primos Bone – Fone, o herói-que-não-sabe-que-vai-ser-herói, Phoney, o ganancioso, e Smiley, o pateta – viram defensores de um Vale bucólico ameaçado por monstros-rato e monstros-gafanhoto. Isso depois de serem expulsos da cidade natal por conta das maracutaias do Phoney.

É a primeira vez que a série sai em cores no Brasil (a versão anterior, em preto e branco, foi lançada a conta gotas entre 1998 e 2010 e não teve conclusão). A tradução é de Andreia Prenholatto Ferreira e edição é da HQM, que deve lançar segundo volume em breve. O carinha de Ohio mencionado acima, criador, escritor e desenhista e ex-editor independente da série, Jeff Smith, vem ao Brasil pro FIQ em novembro.

BaladaHaloJones

Este também é um caso de republicação, e com alguns avanços em relação à edição anterior. É material do Alan Moore e, mesmo que seja do Alan Moore iniciante, todas alanmoorices acabam ficando mais ou menos em catálogo por aqui. Não era o caso dessa.

A Balada de Halo Jones é daquelas HQs de que passei muitos anos ouvindo falar, sem possibilidade de tocar. Ela tende a provocar uma certa nostalgia nos fãs do Moore, porque ele ainda estava afinando a escrita e os temas que ia tratar pelo resto da carreira. Mas já tinha boas ideias. Halo Jones é uma personagem que vive as agruras de ser classe baixa num mundo do futuro onde a exploração da classe baixa continua, só com mais tecnologia.

Um dos pontos altos, provavelmente a melhor ideia sci-fi da série, é quando Halo Jones vira soldada e é enviada a combater num lugar onde o tempo transcorre diferente – ela perde alguns anos de vida a cada minuto de combate. A coisa meio que grita “SOU UMA METÁFORA”, mas é uma ideia legal.

A nova edição saiu com preço pesado (R$ 70) mas traz material que não aparecia na primeira versão publicada no Brasil. A editora é a Mythos e a tradução de Pedro Bouça.

contos-de-fadas-em-quadrinhos

Esse álbum provavelmente passa despercebido de leitores de quadrinhos porque, nas livrarias em que encontrei (e mesmo na catalogação da Amazon.br), ele foi parar na seção infantil e não está em comic shops como a Comix. Mas é um acontecimento. Por mais que sejam histórias curtas, ele tem material de David Mazzucchelli (Asterios Polyp), Craig Thompson (Habibi), Jillian Tamaki (This One Summer), Gilbert Hernandez (Love & Rockets)… e a primeira publicação no Brasil, até onde me consta, de alguns dos meus contemporâneos preferidos: Joseph Lambert, Vanessa Davis, Luke Pearson.

Sim, contos de fada são para crianças, e sim, estes autores costumam fazer HQs para adultos. Mas o álbum funciona bem tanto como leitura infantil quanto para quem tem mais estrada nos gibis. Digamos que não seja tão ousado/experimental quanto Little Lit nem tão adulto/dark quanto Irmãos Grimm em Quadrinhos, dois projetos parecidos de uns anos atrás. Mas atende bem aos dois públicos.

A edição é da Record, com tradução de Rosa Amanda Strausz, com um trabalho louco de letreiramento da Renata Vidal da Cunha para dar conta do letreiramento em cada história.

CAPA-PILULAS-AZUIS

Alguns amigos já ganharam e muitos já me aguentaram linkando, elogiando, propagandeando esta HQ. Aliás, numa época em que editoras estavam me pedindo recomendações de obras a publicar, anos atrás, essa foi a primeira que eu enviei. Só agora a Nemo (que não recebeu recomendação minha) se pronunciou e trouxe Pilulas Azuis para cá.

E é interessante que tenha sido agora, pois a obra – originalmente de 2001 – ganhou uma reedição europeia há poucos anos, com um capítulo final arrebatador. Para os que ainda não cansaram de me ouvir, Pílulas Azuis é uma história autobiográfica de Frederik Peeters, sobre quando se apaixonou por uma menina com Aids, Cati, e que tinha um filho com a mesma doença. Fiz uma resenha algum tempo atrás. No novo capítulo, Peeters conta sua vida com Cati, com o filho adotivo e com uma nova filha, treze anos depois.

E como muita gente tem me perguntado, já adianto: não, não é uma história triste. Longe disso.

A tradução é do Fernando Scheibe. Tenho visto a edição com desconto por aí e recomendo veementemente você já comprar umas cinco para distribuir aos amigos.

Tem outros fabulosos quadrinhos não-brasileiros que saíram nesses últimos meses. Monster, de Naoki Urasawa, chegou ao fim e queria muito encontrar uma loja que vendesse um pacotão com os dezoito volumes. 20th Century Boys, também de Urasawa, está próxima do final e é uma leitura igualmente divertida. Monstro do Pântano de Alan Moore está sendo reeditado, pela primeira vez completo (o último previsto para este mês). Acabou de sair Parker, estilosíssima HQ policial do Darwyn Cooke adaptando os livros de Donald Westlake (mas ainda não vi a edição). Concreto, de Paul Chadwick, também voltou a sair aqui, e torço que chegue às obras-primas que são os volumes finais (mas também ainda não vi esse primeiro). E só não destaco As Portas do Éden do Kioskerman porque já fiz isso há pouco tempo, aqui no blog.

Onde comprar: infelizmente não há uma loja onde se encontre tudo. Amazon e similares têm algumas coisas, inclusive com bons descontos. Mas no caso de material feito pra banca, o negócio é recorrer a LigaHQ ou Comix.

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4 Comentários

  • Rafael Olivato says:

    Ótimas recomendações!
    Realmente não tinha ouvido falar desse “Contos de Fada”.

    Uma dúvida sobre a antologia de quadrinhos brasileiros. Só entra na antologia quem submeteu seu quadrinho na inscrição ou qualquer coisa publicada no período citado tem chance de entrar (um trecho de uma Graphic MSP, por exemplo)?
    Acredito fortemente na primeira opção, mas não custa perguntar.

    • ericoassis says:

      Olá, Rafael! Não, entram também alguns que não submeteram. Toda publicação do período podia entrar (e alguns entraram).

      • Rafael Olivato says:

        Oi, Érico!
        Valeu! Que legal, achei que isso fosse meio improvável por questões contratuais, de direitos autorais, etc. Ansioso pra ver como vai ser! 🙂

  • Alexandre Dal Pizzol says:

    Olá Érico!
    Não sei se você recorda, mas há um tempo atrás você respondeu um e-mail meu sobre “HQ’s recentes essenciais”.
    Obrigado por essas dicas!! Acompanho “A Pilha” regularmente.
    Tá difícil de achar o Planetes #1, mas vamos dar uma garimpada..
    E para quem souber inglês, o Bone One Volume Edition é mais em conta…

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