QUADRINISTAS

Marcelo Saravá e Marco Oliveira: Aos Cuidados de Rafaela

QUADRINISTAS traz textos de, hã, quadrinistas que lançaram álbum recente no Brasil. É um espaço para eles falarem sobre a obra, as influências, o que passava pela cabeça deles enquanto produziam ou para conversar com outros autores. O espaço é deles.

Aos Cuidados de Rafaela foi uma das HQs brasileiras que mais curti este ano. Os autores Marcelo Saravá e Marco Oliveira falaram o seguinte:

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Aos Cuidados de Rafaela demorou quase 5 anos para nascer. Surgiu em 2010 como um argumento de seis páginas do Saravá que poderia virar livro, peça, filme ou HQ. Em 2011, ele chamou o Marco para fazer um projeto pro edital de HQ do governo estadual de São Paulo. O Marco topou e eles, quer dizer, nós, mandamos o projeto. Não rolou. No ano seguinte, tentamos novamente e deu. O que só mostra que se você acredita numa ideia, vale insistir.

Em termos de estrutura de roteiro, Aos Cuidados de Rafaela foi pensada como um longa-metragem. Teria uma divisão em atos bem calcada no cinema clássico. Conforme este esquema, Nicolas inventar a doença seria o Ponto de Virada 1. Mas a primeira parte da história cresceu tanto que a estrutura clássica teve que ser trocada por um formato teatral de dois atos.

Para chegarmos ao resultado, foi fundamental mostrar a pessoas de confiança a sinopse, a escaleta e as páginas prontas, ouvir os comentários e reescrever várias vezes. Assim pudemos sentir os pontos fracos e fortes da história e desenvolvê-la. O primeiro argumento já tinha a premissa, os personagens, o arco do protagonista e o final. Mas o desenrolar da trama era fraco, sem twists. A Rafaela não tinha a menor densidade; o Nicolas era muito mais loser e sem nenhum amigo; faltava também um alívio cômico. Conversamos, redesenhamos o esqueleto da história e chegamos aos poucos às soluções que estão no livro – a criação do médico Cabral, por exemplo, que deu um ganho enorme à história.

Enquanto o Saravá reescrevia, o Marco fez diversos estudos para encontrar o melhor traço, a melhor paleta de cores, como desenhar os personagens de modo condizente com suas respectivas personalidades. O Nicolas, por exemplo, tinha mais cara de tiozão perdedor, com óculos e um bigodinho que o deixava bem quadrado. As mudanças gráficas aconteceram juntamente com as mudanças de roteiro e características de cada personagem.

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Ao mesmo tempo, discutíamos sobre os objetivos que cada um tinha com o projeto. Apesar de parceiros há tempos, temos projetos artísticos, influências e pretensões bem diferentes. Como esta criação seria feita em pé de igualdade, tivemos que adequar essas expectativas para trilharmos um caminho em comum. Apesar dos desgastes naturais de qualquer parceria, sempre respeitamos um ao outro (o que no nosso caso significa um mandar o outro sentar numa rola e daí pra baixo) e soubemos fazer concessões.

Uma das coisas mais importantes da parceria para chegarmos num bom resultado foi a franqueza de cada um quando o trabalho do outro não estava bom. Tá ruim, pensa outra coisa, faz de novo. Ninguém teve frescura ou medinho de falar pro outro que não gostou. Podemos dizer com convicção que os dois têm partes no todo. Vamos dizer assim: Marcelo também desenhou e Marco também escreveu. E isso não é papinho clichê de parceria. Houve muita discórdia pra chegarmos nos finalmentes com ambos plenamente satisfeitos.

Também criamos um arquivão para jogar ideias. Ali surgiram os mini-quadros que usamos tanto; o jogo de tabuleiro; a splash page do começo, meio e fim da história. Uma das nossas primeiras decisões foi que a casa seria tratada como um personagem. Isso se traduziu em um tratamento de cor bastante distinto entre as cenas dentro e fora da casa. Também decidimos usar a planta baixa como recurso narrativo, e é por isso que o livro abre com ela. A primeira cena, que é basicamente uma steadycam passeando pela casa até chegar em Nicolas e Dona Aurélia, ajudou a reforçar isso.

Queríamos tentar fazer algo que só fosse possível nos quadrinhos. Daí surgiu a ideia de pegar uma folha frente-e-verso do livro e transformar nos dois lados de uma parede. Em qual outra arte dá pra fazer isso?

planta

Fechada a escaleta final, partimos para o roteiro. Já estávamos atrasados no nosso cronograma, por isso o Saravá escreveu o roteiro num estilo quase Stan Lee: ele decupava a cena, fazendo a divisão de páginas e descrevendo cada quadro, mas não fazia os diálogos. Só dava uma direção de o que, mais ou menos, cada personagem diria. Por exemplo: NICOLAS: (reclama do cigarro de Rafaela). RAFAELA: (mostra que agora ela fuma quando quiser). E o roteiro era entregue assim para o Marco, que podia começar a desenhar enquanto o Saravá se dedicava aos diálogos com mais esmero. Esse modo de trabalhar também permitiu que em várias cenas o diálogo do Saravá fosse influenciado pelo desenho do Marco.

A escrita do roteiro terminou três semanas antes do livro ser enviado para a gráfica. Até lá, enquanto o Marco fazia o projeto gráfico, o Saravá ainda mexia no diálogo e escrevia letra de música para a Aurelita Soares.

Como nós dois fazemos tiras e escrevemos muito diálogo, ficou mais fácil deixá-los mais soltos e próximos de diálogos reais. As tiras exigem diálogos diretos e precisos, do contrário o leitor não entenderá da maneira como deve.

cena 06 pg 17O processo de desenho era basicamente o Marco fazer os thumbnails em cima do roteiro sem diálogos e mandar para o Marcelo, depois discutíamos possíveis mudanças. Estando os dois de acordo, a página era rascunhada, arte-finalizada e então as cores, balões e textos inseridos digitalmente. A fonte também foi criada exclusivamente para a história, pra ficar mais condizente com o traço e, também, nas falas do Nicolas doente, que, mais do que estética, foi uma necessidade para dar destaque ao modo de falar do doente.

Para fazer a história, o Saravá se inspirou em Nelson Rodrigues, especialmente nas suas crônicas (A Vida como Ela É); no filme O Criado, escrito pelo Harold Pinter; e no filme O Invasor, do Beto Brant. Tem também uma cena em Aos Cuidados de Rafaela que foi escancaradamente chupada do filme Buffalo 66, do Vincent Gallo, mas vamos chamar de homenagem, ok? Para o desenho, Marco apenas se inspirou e desenhou, pois, até então, seus traços se restringiam às tiras. O que ele fez foi só colocar no papel todo o recurso gráfico que possuía, aceitando e reconhecendo suas limitações, o que é importantíssimo para um resultado honesto.

Queríamos desde o começo fazer uma HQ que pudesse ser apreciada também por quem não gosta de HQ. A temática adulta e rodrigueana permitiria isso. Agora que o livro foi publicado, notamos algo engraçado: quem não lê quadrinhos não sabe ler quadrinhos. Tem pessoas que simplesmente não têm o conjunto de ferramentas necessárias para seguir uma narrativa mais complexa, baseada em silêncios, elipses, cortes secos, sem ter um guia que os conduza pela mão. Não estão acostumados a olhar uma imagem e pararem nela; querem ir logo para o diálogo pois acham que a história está mesmo é lá, não nas figuras; não entendem o tempo dos quadrinhos; não conseguem fazer o processo mental de somar duas imagens justapostas e criar na sua cabeça um terceiro sentido, o que deveria ser natural depois de mais de cem anos de montagem cinematográfica. É uma linguagem totalmente nova para eles. Isso tudo é muito curioso, mas a verdade é que provavelmente não conseguiríamos fazer esta HQ de outra forma. Então esperamos que pelo menos Aos Cuidados consiga dar para estes não-leitores algumas das ferramentas necessárias pra que, mais pra frente, eles possam ler outras obras de criadores mais interessantes do que nós.

Aos Cuidados de Rafaela demorou quase 5 anos para nascer. Agora que nasceu, estamos contentes com o resultado. E também com a crítica, que felizmente não achou que o livro nasceu com cara de joelho. Estamos preparando novos projetos, aproveitando a experiência que fazer esta HQ nos deu, tentando sempre melhorar como autores. Vamo que vamo.

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17 páginas de preview de Aos Cuidados de Rafaela.

Compre direto da Editora Zarabatana.

Resenha de Audaci Junior no Universo HQ.

Prévia de versão anterior do álbum, no blog de Marcelo Saravá.

Overdose Homeopática, a tira premiada do Marco Oliveira.

Marcelo Saravá e suas Tiras sem Desenho.

 

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