CONVERSANDO

A Polvo e o Quadrinho Brasileiro em Portugal

O jornal português Público anda com uma rubrica “Ano grande do Brasil” desde outubro. Tratou das eleições, falou com escritores (Antonio Prata, Sérgio Rodrigues, Contardo Calligaris), da violência, do racismo, do novo Ministro da Fazenda… e dos nossos quadrinhos. Sim, Brasil lembra tanto Dilma quanto literatura quanto economia quanto violência quanto gibi!

O ensejo da matéria sobre quadrinhos é a publicação portuguesa de uma boa seleção de álbuns brasileiros: no final de 2014, saíram lá Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, Copacabana, de Lobo e Odyr, e Matinê (ou Matiné), de Magno Costa e Marcelo Costa mais convidados. No início do ano passado saiu 7 Vidas, de André Diniz, precedida em 2013 por duas outras obras do mesmo Diniz: Morro da FavelaDuas Luas (com Pablo Mayer, lançada primeiramente em Portugal).
Capa-Cachalote-Polvo
O jornalista José Marmeleira conversou com Rafael Coutinho, Marcelo D’Salete, Odyr, Lobo e comigo para a matéria “Das ruas de São Paulo a Copacabana, o Brasil desenha-se em quadrinhos”. Marmeleira ficou contente com o que viu:
eis o que de facto importa: a qualidade das obras, a diversidade de estilos e temáticas, a invenção gráfica. A relação com o real. Copacabana nasceu dos passeios nocturnos de Lobo pelas calçadas, os bares e as boates do bairro de Copacabana, entre putas, traficantes e travestis. É uma banda desenhada a carvão e a tinta-da-china com o traço nervoso e redondo de Odyr, que avança na noite empurrada pelo trabalho e pelos sonhos de Diana, mulata e prostituta. Ficção e real, imaginação e trabalho de campo fundem-se e dão conta de uma cidade em transformação. Já Cachalote, num desenho fino e frágil como a escrita de Daniel Galera, lança cinco histórias paralelas que nunca se ligam. Preenchem-nas os “combates” e as emoções de homens e mulheres (um estrela do cinema chinês, um casal, um escultor, um escritor e a sua ex-mulher, entre outras personagens) em geografias anónimas ou diversas (São Paulo, Europa), com o realismo a acolher o fantástico.
Capa Copacabana 1
Por conta dessa matéria, tive uma conversa com Rui Brito, editor da Polvo – a editora portuguesa responsável por levar todos esses autores brasileiros à antiga metrópole.
A Polvo já tem quase duas décadas de existência, criada por entusiastas de quadrinhos que publicavam fanzine no final dos anos 1980. A editora se organizou para publicar autores portugueses, abriu-se para tradução de franceses como Marjane Satrapi e Joann Sfar, e agora entrou nessa fase curiosa de chancela do quadrinho brasileiro numa pontinha da Europa.
“Os leitores portugueses lêem relativamente bem o português do Brasil. É fruto das inúmeras telenovelas que por cá passam. Mas quando necessário procedemos a alterações”, respondeu Rui Brito quanto à primeira dúvida que me inquietava. Matiné – que saiu lá com um capítulo inédito no Brasil -, porém, é um exemplo contrário: foi totalmente reletreirada para o leitor português.
Quanto às tiragens: “A tiragem média de um álbum em Portugal é difícil de dizer, pois varia muito consoante a editora, o título e o reconhecimento do autor. No caso da Polvo e dos autores brasileiros, estes, por serem desconhecidos do leitor português, estão a ser alvo de um enorme esforço da nossa parte, em termos financeiros e de promoção, para que comecem a ser apreciados por aqui. O André Diniz, com os três livros que já lançámos dele (em dois anos), é quem tem mais notoriedade. E esteve por cá em eventos ligados à BD por duas vezes, como convidado. Já é um amigo.”Joana Afonso - Deixa-me entrar, capa

Fiquei curioso com alguns álbuns de portugueses que vi pela Polvo, principalmente um bem recente: Deixa-me Entrar, de Joana Afonso. Brito me diz que ela é a “nova coqueluche da BD portuguesa”. Ele também diz que devo conhecer Penim Loureiro (Cidade Suspensa), Rui Lacas (Hän Solo), a dupla humorística Geral e Derradé (Há piores – Até ao âmago!) – “série na senda do trabalho de Angeli, Laerte e Glauco” – e outros que já são prata da casa, como Miguel Rocha.

“Ainda temos o Paulo Monteiro, cuja única obra, O amor infinito que te tenho, é a que se encontra mais editada no estrangeiro de um autor português (Brasil inclusive, pela Balão Editorial). Já foi premiada em Portugal, França e Espanha.”

O site da Polvo está funcionando só no modo básico por alguns dias, mas deve retornar – inclusive com sistema de vendas – em breve. Seria legal o intercâmbio virar de mão dupla: as editoras brasileiras podiam dar uma olhada na nova produção portuguesa.

Capa-Hän-Solo

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