TRADUZINDO

Vingança

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Vingança, uma edição especial da Marvel/Panini que saiu faz alguns dias em bancas e livrarias. Fui o tradutor e acho que foi meu primeiro trabalho “Universo Marvel”. Mas não queria comentar tanto a tradução, e sim o histórico curioso da HQ.

Vengeance, no original, foi daquelas minisséries da Marvel precedidas por campanha de teaser com promessas bombásticas. Saiu em 2012 e não foi muito bombástica. Aliás, traía os teasers: os vilões clássicos em pinturas icônicas de Gabrielle Dell’Otto estavam longe de serem protagonistas. Os protagonistas mesmo eram uma nova geração da Brigada Juvenil (criação lee-kirbyana dos anos sessenta) e uma nova geração, também juvenil, dos Mestres do Terror.

A estranheza da série começa pelo fato, revelado pelo próprio editor em texto na última edição da minissérie (não sei se está na coletânea brasileira), de que as capas – as tais pinturas icônicas dos vilões – foram produzidas antes da história. A Marvel estava com as artes por lá e queria algum produto legal para que elas virarem embalagem. A batata quente caiu para Joe Casey.

Casey tem uma carreira nos quadrinhos de alguns altos e vários baixos desde meados dos anos 1990. Depois de muitos anos de X-Men, de Superman e algumas criações pessoais e interessantes, como Automatic KafkaIntimates, Casey entrou no coletivo de escritores Man of Action – de outros carinhas que haviam feito carreira com X-Men, Superman e similares (Steven Seagle, Duncan Rouleau, Joe Kelly). Foi o Man of Action que criou Ben 10. Casey e amigos provavelmente não vão se preocupar com grana pelo resto da vida.

Foi esse ensejo de projeto estrambólico e desapego zero que provavelmente levou Casey a dar entrevistas curiosas sobre Vingança. Quando a série estava para sair, ele falou com o Comic Book Resources e com o Newsarama.

Essa série não vai vender. O mercado não tem estrutura pra sustentar uma série dessas, por melhor que seja. Pô, eu vou ficar surpreso se você comprar, Tim [o entrevistador].

(…)

O fato de que essa série vai vender muito pouco – cacete, eu acho que vai vender é nada – me dá uma liberdade que outras séries tipo “evento” não têm. Tem muita grana rolando nessas outras para elas ousarem, pra ser experimental. O Grant [Morrison] passou a perna na DC quando transformou Crise Final num projeto mais autoral – e olha só no que deu. Da minha parte eu amei, mas o editorial da DC ficou com cara de quando alguém solta pum no elevador.

 (…)

Já que o meu objetivo não é fazer minha carreira nos quadrinhos por encomenda, que eu não estou fazendo networking para ser novo roteirista do Homem-Aranha nem de nenhuma franquia, não tenho nada a perder numa série dessas. Fico praticamente livre pra seguir minha inspiração, e desde que os caras que assinam o cheque não se importam, melhor eu vir com tudo e botar pra f*der.

Casey, apesar de tudo, diz que se divertiu com o roteiro e com a colaboração com o desenhista Nick Dragotta. Tem até uns momentos especiais que se inspiram na piração da Marvel anos 70, como o Intermediário e o gigante interdimensional Tiboro. Apesar de dizer nas entrevistas que não queria criar nenhum personagem novo – “eu é que não sou cego de entregar uma criação de bandeja para megacorporação” -, Casey acabou gerando alguns, inclusive a Miss América que teve sobrevida interessante em Jovens Vingadores (boa série Marvel dos últimos anos).

O escritor já tinha feito uma parecida com a DC: também em entrevista, detonou as edições de Superman/Batman que fora convidado a escrever. Não está nem aí: fora o emprego na Man of Action, está muito contente com suas criações autorais na Image (Sex, Butcher Baker, The Bounce). A Marvel nunca mais encomendou seus serviços.

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2 Comentários

  • Vinil_S says:

    Eu achei a ilustração da capa bem legal, mas não me animei a comprar e nem a ler essa hq. Mas agora que conheci a história por trás da sua criação, fiquei bem mais curioso. Sei lá, quando o assunto é quadrinhos de super-herói, quanto mais divertido e quanto menor a pretensão, melhor.

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