CONVERSANDO

Paul Gravett no Brasil (entrevista)

Paul Gravett provavelmente seja o cara com conhecimento mais amplo sobre quadrinhos que existe no mundo. Ele é inglês, edita HQ e escreve sobre HQ desde os anos 80, publicou meia dúzia de livros bons e está sempre colaborando com revistas e sites sobre o que há de mais novo no quadrinho egípcio, no quadrinho colombiano, no quadrinho sul-africano, no quadrinho chinês – e dos americanos, ingleses, franco-belgas e japoneses, é óbvio. Para se manter informado e repassar o que encontra, ele tem uma rede de colaboradores pelo planeta, que inclusive ajudou ele a montar o cosmopolita 1001 Comics You Must Read Before You Die.

Gravett estará em São Paulo na semana que vem. Ele fará a conferência de abertura das 3as Jornadas Internacionais de Quadrinhos, na ECA-USP, na terça-feira, dia 18, a partir das 19h10. Na conversa que tivemos por e-mail, ele disse que vai falar sobre o que há de mais recente nesse panorama internacional de HQs.

Não é a primeira vez de Gravett no Brasil, mas ele vem com seu interesse constante por saber mais do quadrinho brasileiro. Aliás, anda bem interessado na 1a Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, de 1951, que aconteceu em São Paulo e é considerada a primeira do mundo. E diz que tem muito interesse em falar com colecionadores e historiadores das HQs por aqui.

Gravett mantém um site pessoal bem atualizado em www.paulgravett.com, com todos seus textos recentes. Tem alguns sobre o Brasil por vir, certamente.

paulgravett

Você só vai passar por São Paulo? Quais são os planos para sua palestra?

Sim, nessa viagem vou ficar apenas em São Paulo. Será minha primeira vez por aí, então tenho muita coisa pra conhecer (quero muito visitar a Gibiteca) e muita gente pra encontrar. É uma honra ser convidado para dar a conferência de abertura na terceira edição do congresso. Eu vou tratar do tema do evento, que seria “Tendências Internacionais na Linguagem dos Quadrinhos”. Entre outras coisas, quero trazer atenção a abordagens narrativas que parecem ser inovadoras em quadrinhos do mundo inteiro, situá-las no contexto histórico e ver no que elas contribuem para a reinvenção contínua das HQs.

Há planos para lançar seus outros livros no Brasil (como Comics Art, que é excelente)? Acho que só Mangá: Como o Japão Reiventou os Quadrinhos saiu por aqui, e está esgotado.

Que bom que você gostou de Comics Art, obrigado! Sim, meu primeiro livro sobre mangás, de 2004, foi publicado pela editora Conrad. Mas isso já faz dez anos. Havia planos para uma edição brasileira do guia que editei em 2011, 1001 Comics You Must Read Before You Die. Não sei se ainda vai rolar. No ano passado, eu co-escrevi Comics Unmasked: Art and Anarchy in the UKpara a British Library, que saiu ao mesmo tempo que uma grande exposição da qual fui curador, junto a John Harris Dunning. Deu trabalho, mas foi ótimo trabalhar simultaneamente nessa mostra e no livro. No momento estou bastante dedicado ao meu próximo livrão, para 2016, mais uma vez voltado para o mangá mas com uma visão mais ampla e mais aprofundada.

Os quadrinhos tiveram destaque no mainstream nos anos 00. Me parece que houve vários lançamentos com ressonância até o início da década atual… e aí a coisa parou. Falo mais do mercado dos EUA, que influencia diretamente o brasileiro, mas parece que o mercado franco-belga está passando pelo mesmo ciclo. Você concorda? Será que os quadrinhos chegaram num platô de mainstream e paramos com aquele avanço que vinha acontecendo há poucos anos?

Eu acredito que o contexto cultural teve um avanço positivo e está mais aberto a tratar de bons gibis e boas graphic novels, e não mais como uma novidade, esquisitice ou singularidade. Ao meu ver, ainda há muitos títulos crossover que vêm chamando atenção: Here, de Richard McGguire, Can’t We Talk About Something More Pleasant?, de Roz Chast, Saga, de Vaughan e Staples, This One Summer de Mariko e Jillian Tamaki, para ficar em exemplos da América do Norte. Também fico contente com a expansão da Image e de outras editoras dos EUA nas quais os autores podem fazer experiências, criar e beneficiar-se de manter os direitos, o que é vital para qualquer cenário de quadrinhos.

A meu ver, o mercado francês continua bastante rico e efervescente, não só com trabalhos dos autores locais – os já tradicionais e os que surgem – mas também graças a uma enorme quantidade de quadrinhos de todo o mundo que são traduzidos no país. Eu acredito que essas duas coisas são necessárias: uma indústria doméstica com vigor e a receptividade a obras importadas e traduzidas, que possam dar frescor e revitalizar a cultura de HQ nacional.

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Qual a sua visão atual sobre autores e quadrinhos do Brasil?

Visitei o Brasil pela primeira vez para a Bienal do Rio de 1991 e fiquei abismado com a riqueza criativa que existia aqui, que no geral pouco se conhecia fora do país. Em 2015, isso mudou muito, e para melhor, pois há mais autores brasileiros sendo traduzidos e contratados no exterior. Os supergêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon são pioneiros, claro, principalmente em projetos pessoais como a genial Daytripper e em Dois Irmãos (ainda a ser lançada em inglês), baseada no livro de Milton Hatoum, que creio que será uma das graphic novels do ano. Tive o prazer de conhecer Rafael Grampá quando ele estava trabalhando em Londres na animação da Absolut, de um talento deslumbrante, e também conheci André Diniz por aqui, depois que Morro da Favela foi traduzido pela SelfMadeHero.

Ao chegar em SP, gostaria muito de botar a conversa em dia com velhos amigos brasileiros, como Edna Lopes, Fabio Zimbres, Carlos Baptista (que também me informa sobre as novidades) e Tito Na Rua. Tenho grande admiração pelo que Lucas Marques e companhia têm feito na Aerolito – na qual contribui com um comentário de quarta capa (“Aerolito oferece exatamente o que precisamos – diferente, ambiciosa, histórias mais longas por empolgantes novas vozes do país que é uma fonte criativa de quadrinhos. Descubra aqui a próxima geração de superstars dos quadrinhos brasileiros!”). E tenho grande respeito pelo veterano Julio Shimamoto, como o que ele fez na coleção Sombras. No momento, tenho interesse particular pelo que fazem as novas quadrinistas do Brasil, como Edna Lopes – pois precisamos de mais vozes e ideias que enriqueçam as “agaquês”. Por fim, acabei de entrevistar o notável Marcello Quintanilha para a revista ArtReview – as graphic novels dele estão pedindo para sair em inglês! Ele também preparou duas páginas inéditas para a revista.

Além disso, gostaria muito de ter visto a exposição Quadrinhos ’51 – um marco para todo o mundo dos quadrinhos. Estou ansioso para saber mais sobre a história das agaquês. Com sorte, espero conhecer historiadores e colecionadores enquanto estiver por aí.

E pode comentar quais autores estrangeiros você tem acompanhado, ou descobriu recentemente?

Isso muda todo dia, quando não a toda hora, pois não paro de pesquisar e de explorar! Por exemplo: sou um dos curadores de uma exposição que acontecerá em Londres no ano que vem, de janeiro a abril, sobre comix e graphic novels só de mulheres. Acho que será uma exposição pode ajudar a dar mais crédito às mulheres que contribuíram para esse meio, tanto ontem quanto hoje. Então, quem anda na minha cabeça no momento, são Ines Estrada do México, Una Parker e Rachael Ball do Reino Unido, a trilogia Skyland de Anne Opotowsky e Tillie Walden, dos EUA.

Hoje mesmo recebi scans de uma tira de jornal rara, esquecida, norte-americana, que é um encanto e precisa ser mais conhecida. Ainda há maravilhas a se descobrir nas páginas do passado.

Outro exemplo: acabei de reencontrar a criatividade peculiar de Lai Tat Tat Wing, de Hong Kong. Eu já conhecia o trabalho dele, mas o que ele vem fazendo é inspirador. Na semana passada eu presidi uma mesa-redonda com quadrinistas do Egito, da Líbia e do Líbano em um festival de literatura árabe em Londres. Tem quadrinhos sensacionais daquela região.

Não tenho grande nostalgia nem sou fiel a personagens, editoras, nem mesmo a autores. Quero surpresas, quero desafios, que me revigorem, me acrescentem. É isso que a mídia faz há séculos – e continua a fazer de maneira tão maravilhosa até hoje.

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5 Comentários

  • Rogério Fernandes says:

    Oi Erico! Bacana essa entrevista sobre o Paul Gravett. Posso sugerir uma pauta? Vi que você traduziu o livro do Thierry Groensteen. Dele eu conheço “la bande dessinée son histoire…” e só. Você poderia indicar/comentar a bibliografia que vc conhece sobre quadrinhos franco-belgas. Eu adoraria ! rs

    • ericoassis says:

      Oi Rogério. Valeu pelo comentário. Ainda estou conhecendo a bibliografia franco-belga sobre HQ – que é quase infinita – e vinha pensando mesmo em um post sobre bibliografia teórica em geral sobre quadrinhos. Para não ficar só em Eisner e McCloud, né? 🙂 Quando eu estiver mais por dentro, escrevo aqui. De pronto, já recomendo um que li há poucos meses e achei excelente: “Comment lire la bande dessinée?”, de Frédéric Pomier.

  • Marcio Garcia says:

    Legal você trazer esta entrevista do Paul Gravett, infelizmente não consegui assistir a palestra na 3as jornadas, mas acompanho o trabalho com pesquisa sobre as HQs, principalmente com relação ao seu uso em sala de aula.

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