CONVERSANDO

Alexander Danner e Dan Mazur

Quadrinhos: História Moderna de uma Arte Global foi publicado simultaneamente em 2014 nos EUA e no Brasil. Embora existam vários livros sobre história das HQs, o de Dan Mazur e Alexander Danner finca a década de 1960 como momento em que o formato começa a ser tratado – por autores e leitores – em pé de igualdade com literatura, cinema e outras artes. É daí que eles começam a contar as últimas cinco décadas da HQ pelo mundo.

E sim, o “global” do título é respeitado. A profundidade com que abordam as evoluções dos quadrinhos nos EUA, no mercado franco-belga e no mangá é admirável para 320 páginas – 320 páginas bem ilustradas. Confira o índice do livro (em inglês).

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Danner e Mazur são quadrinistas e moram em Cambridge, Massachusetts. Danner também é professor de “Writing the Graphic Novel” no Emerson College. A edição brasileira, da WMF Martins Fontes, foi traduzida por Marilena Moraes e revisada pelo pesquisador de quadrinhos Waldomiro Vergueiro.

O livro de vocês é praticamente sem igual. Conheço poucos outros que tratam do fenômeno comics / BD / mangá – ou história em quadrinhos, como chamamos no Brasil – com uma visão igualitária de como ele se manifesta em vários países. O único outro exemplo que consigo lembrar (e recente) é o Comics Art de Paul Gravett. Como você tiveram essa ideia e como foi negociar a proposta com a editora original?

ALEXANDER DANNER: Na verdade, foi a editora que apareceu com a proposta! De início eles queriam tratar de um intervalo de tempo maior: toda a história dos quadrinhos. Mas convencemos eles de que a história das HQs era um tópico muito maior do que se pode dar conta em um volume só. Desde saída, porém, eles eram a favor de tratar dos quadrinhos em várias culturas.

Para nós era central ver não só as histórias dos quadrinhos em cada cultura, mas como cada uma dessas culturas influenciou a outra. As culturas de HQ dos EUA/Reino Unido, Europa e Japão são muito mais interligadas do que o leitor leigo tende a perceber.

DAN MAZUR: Na verdade, a editora veio até nós com uma ideia mais ampla, mas ainda assim seria um livro sobre quadrinhos. Nós que demos a ideia de interligar a história dos quadrinhos nos EUA, na Europa e na Ásia! Pode-se comparar com livros acadêmicos de história da arte, que costumam fazer saltos pelo mundo para acompanhar os movimentos artísticos e passam ao leitor uma ideia da evolução da arte e das influências que um país tem sobre o outro. (No caso dos quadrinhos, por ser uma arte de menos idade, a evolução aconteceu em uma era de maior intercâmbio entre terras distantes e por isso a história do mangá está mais entrelaçada com a evolução dos quadrinhos ocidentais do que seria o caso na história maior das artes.) Para entender e saber apreciar mesmo a arte dos quadrinhos, é importante entender o grande panorama.

Embora a abordagem temática de Gravett seja eficaz, também queríamos nos ater a um método cronológico, para que o leitor ou leitora saia conhecendo uma linha do tempo dos quadrinhos.

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O que vocês conheciam das HQs que mencionam no livro antes de fazer a pesquisa? Já conheciam a maioria, ou a maioria surgiu para vocês durante o processo? E quais foram as melhores surpresas?

DANNER: Nós dois temos muito familiaridade com quadrinhos norte-americanos e britânicos, é óbvio, mas tínhamos muito a aprender sobre quadrinhos de outras paragens. Boa parte da nossa pesquisa foi binge reading de todo título europeu ou japonês em que conseguimos botar a mão.

Entre as melhores surpresas estão os mangás joseiseinen – respectivamente mangás para mulheres adultas e homens adultos. Mesmo que o mangá faça sucesso nos EUA há algum tempo, esta popularidade está focada sobretudo em mangás para adolescentes. E embora boa parte destes seja bom, nem sempre eles representam obras mais sofisticadas que os autores de mangá já produziram. O mangá josei, acima de tudo, é praticamente desconhecido nos EUA. Há poucos exemplos traduzidos para o inglês (embora existam mais em francês).

DAN MAZUR: Sim, foi BEM MAIS pesquisa do que eu esperava. Foi muito instruivo. Tivemos várias surpresas no mangá, como diz Alexander. E fiquei impressionado sobretudo com a obra do artista argentino-uruguaio Alberto Breccia e seu  frequente colaborador, o escritor Hector Oesterheld, também da Argentina.

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Que idiomas vocês leem? O livro acabou saindo simultanamente em três idiomas. Como isso aconteceu?

DANNER: O Dan lê francês, e é óbvio que isso ajudou nas partes sobre a Europa. Eu só falo inglês. Tivemos ajuda de falantes de japonês para compreender alguns mangás dos quais não havia tradução.

O livro atualmente está à venda em inglês, português e espanhol, e há uma edição tcheca por sair. Espero que venham mais! Quem cuida de buscar parcerias editoriais em outras regiões é a Thames & Hudson.

MAZUR: Também leio espanhol e um pouquinho de italiano. Mas aprender francês foi crucial. Estudei de forma intensiva quando começamos o projeto. Não só as bande dessinée franco-belgas eram muito importantes, mas os franceses estão muito bem em termos de tradução de mangás que não existem em inglês.

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O Brasil foge dos intentos do livro – que se centra nos mercados de HQ dos EUA, da França-Bélgica e do Japão, com algumas esticadinhas para Espanha, Itália e Argentina. Creio que a única HQ brasileira que vocês citam seja Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá (lançada originalmente por uma editora dos EUA). O que mais vocês conhecem dos quadrinhos brasileiros? E tiveram contato com outras referências de quadrinhos brasileiros durante a pesquisa?

DANNER: Iniciamos o projeto com a meta de nos aprofundarmos em mais regiões do que seria possível, dada a limitação dos prazos editoriais. Por isso, infelizmente, o Brasil ainda é uma região da qual não sabemos o bastante. Mas é certo que fica no topo da lista de lugares sobre os quais queremos pesquisar a fundo, caso suja oportunidade para uma segunda edição do livro.

Daytripper, aliás, foi uma das graphic novels que mais gostei nesses últimos anos. Se Moon e Bá representam o talento que existe no Brasil, será um prazer aprender mais sobre as “histórias em quadrinhos”.

MAZUR: Sim, enfocamos as “grandes escolas” de quadrinhos no planeta: a europeia, a norte-americana, a japonesa e, embora tenhamos dado alguma atenção à Argentina, infelizmente acabamos sem espaço para se aprofundar no Brasil, assim como em várias outras culturas quadrinísticas dignas de nota (fico lembrando das Filipinas). Aqui sabe-se muito pouco e tem-se muito pouco publicado sobre os quadrinhos brasileiros. Não há quase nada traduzido. Mas temos a impressão de que os quadrinhos são levados a sério como arte no Brasil, de forma que aprender mais nos anima muito. Com sorte, se o livro for bem e ganharmos outra edição, trataremos justamente disso!

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Página pessoal Alexander Danner

Página pessoal Dan Mazur

Posts de pesquisa de Mazur, bastante ilustrados

Preview da edição brasileira no Cuzcuz-Literário

Resenha de Michelle Ramos

Resenha de Paulo Ramos na Folha de S. Paulo

Resenha no Shoujo Café, focada nas seções sobre mangá

Quadrinhos: História Moderna de uma Arte Global tem preço sugerido de R$ 89: Livraria Cultura – FnacAmazonTravessa

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